terça-feira, 27 de abril de 2010

FESTIPOA I: POESIA NA MÃO



Levei Quatro Quartos, de Monique Revillion e Duas Palavras, de Altair Martins. Contos incríveis. Estar com os autores é fundamental. Agora temos autores do Sul:


De Quatro Quartos, vai um trecho do final de A Peste:

Queria te contar que desde aquela noite, estou me sentindo estranho. Estranho, ora, diferente. Não comentei com ninguém, mas o pior é que aquilo tudo agora acontece comigo. A verdade é que me dá um ódio danado cada vez que eu imagino alguém com aquele sorriso esquisito. Acho que eu nunca tinha sentido nada parecido, nem tinha dito essa palavbra antes, ódio. O que me incomoda, o que me assusta até, é essa coisa dentro de mim, exatamente, mas exatamente como quando se come caqui verde, o mesmo nó nas tripas e a mesma, idêntica, vontade de vomitar. E a raiva quando enxergo alguém com aquele sorriso, quando o olho não ri junto, só a boca levanta e arreganha os dentes, mas sem alegria nenhuma do rosto da pessoa.


E de Duas Palavras, um parágrafo de Presença, conto inédito:

Então apertei a mão de Filipe e entendi que havíamos perdido diferentemente uma mesma pessoa. Ele estava despedaçado, amparando as meninas ali, me consolando aqui. Era um homem de rara grandeza. Não esperaria menos: era um homem para Laura, sim. Olhando nós dois ao redor de um caixão simbólico, onde pusemos objetos distintos que lembravam a mesma mulher, percebi que fazíamos de tudo para que o mínimo rastro dela nos permitisse uma tal despedida ao menos digna. Mas Laura era imensa, e o caixão ao centro parecia naufragar, apesar de tanto esforço duplo. Dois homens à deriva, pensei alto. Ele perguntou o que era, e eu disse "nós dois, à deriva", mas ainda assim ele ficou sem entender, apertou as minhas mãos com modos de mulher, tornando-se mais corajoso à minha vista. Nada falei, e fui buscar café para nós dois.


Delícia participar com tanta gente boa desse evento literário em Porto Alegre.Muitas trocas, poemas por toda parte. A mala com muuuuuitos livros, mais cheia do que na ida.
De Cazé recebi Macromundo,

Uma ave de origami
montada com guardanapo
ganha vida de repente,
no palito de dente empalada,
voa bonita no vento
apesar do sangramento,
seu sofrimento abreviado
quando o papel é amassado.

De Sidnei Schneider, Quichiligangues,

Oceaníade

menina,
os peixes a moldaram,
até fazer dela uma deusa
saída das ondas

tanto a beijaram
que a menina-moça
em troca
moldou a boca dos peixes
até se tornar mulher

na boca curva
apta para o seuo e o lábio
restou o gosto
que tentam limpar
na água salobra
do mar

e veio Marcelo Benvenutti, com Arquivo Morto, que agarra os olhos da gente na primeira, antes até de xeretarmos o arquivo de A a Z:

A palavra escrita é mais que uma lei. A palavra escrita é ordem desregrada de nossos pensamentos. Mas os nossos pensamentos, esses sentimentos que vêm lá do fundo, lá da alma, somente se revelam no olhar.
Se alguém tiver o olhar perdido, sua alma está viajando em outra. Se tiver um olhar alegre, sua alma está correndo de pés descalços. Se tiver um olhar caloroso, sua alma está desenando outra. Se tiver o olhar centrado, sua alma está ocupada.
Mas, cuidado. Se seu olhar fugir dos outros, mostrar-se vazio e uniforme, sua alma está morta.
Convém nos afastarmos das almas mortas.

E por aí vai, azar do personagem, de Reginando Pujol Filho, Solidão Calcinada, de Bárbara Lia, Água Passante, de Liana Timm, Só Poesia, de Vladimir Cunha Santos e muuuuitos outros.

Encontros, rever Luís Serguilha, Marcelino Freire, Xico Sá, queridos colaboradores, conhecer Cris Cubas, Marcela e Guilherme, que estiveram comigo na praça da Alfândega, em oficina no sábado. Estar com Fernando Ramos, queridíssimo. Foi ótimo mergulhar na literatura por alguns dias.

Nenhum comentário:

Postar um comentário